Psicologia Transpessoal

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   A psicologia transpessoal é uma abordagem da Psicologia, considerada por Abraham Maslow (1908-1970) como a "quarta força", sendo a primeira força o Behaviorismo, seguida da Psicanálise, e do Humanismo.


   Surgiu em 1967 junto aos movimentos New Age nos EUA, pelo pensamento de Maslow, que dizia que o ser humano necessitava transcender sua Psique, conectando-se a outras realidades, procurando pela Verdade, de forma a entender sua existência e ajudar a si próprio.


   A abordagem Transpessoal é uma área da psicologia que estuda as possibilidades psíquicas (mentais, emocionais, intuitivas e somato-sensoriais) do ser humano pelos diferentes estados ou graus de consciência pelos quais passa a pessoa (para se ter idéia do que seja estados de consciência, lembre-se que o estado de consciência de quando se está acordado é diferente do estado de consciência de quando se está dormindo; que o estado de consciência de quando se resolve um problema de matemática é diferente de quando se assisti a um filme, etc.). Em cada um destes estados de consciência (que são vários, alguns ainda desconhecidos) é experimentada uma forma diferente de se perceber ou interpretar a realidade (quando estamos com raiva ou frustrados, percebemos o mundo de uma maneira muitíssimo diversa de quando estamos apaixonados).

 

   A Psicologia Transpessoal, portanto, volta-se para o estudo destes diversos estados, não os encarando como contrários, mas como complementares, dando, porém, especial ênfase aqueles estados de consciência superiores, espirituais ou “transpessoais”, porque em tais estados, o sentimento de separação e de egoísmo tornar-se um segundo plano em relação a um sentimento e identificação mais ampla, cooperativa, fraternal, transpessoal para com todos os seres vivos (consciência crística, búdica, nirvânica, universal ou ecológica). E foram exatamente os grandes mestres, quer religiosos (Cristo, Buda, Francisco de Assis), quer científicos (Einstein, Tesla, Heisenberg), quer políticos (Gandhi, Luther King), quer artísticos (Bach, Da Vinci) que experimentaram, em graus variáveis, picos de “Consciência Cósmica” que mudaram não só suas próprias percepções da realidade, como ajudaram a outros (embora de modo diferente, pois a experiência não pode ser facilmente posta em palavras) a atingirem ao menos uma intuição desta “outra maneira de ver e sentir” o mundo, natural e humano.


   A temática da espiritualidade, ou da dimensão espiritual do homem, caracteriza a Psicologia Transpessoal como a primeira corrente contemporânea de Psicologia, em grande parte apoiada nas pesquisas pioneiras de Jung, a se dedicar de forma sistemática às dimensões subjetivas perceptuais que eram, até então, ignoradas, negadas ou reduzidas a características ou sintomas de psicopatologia na área da sexualidade, pela Psicanálise, por exemplo.

 

   O estudo da Consciência Humana, e das suas várias manifestações em termos de percepção, fora abandonado por um longo tempo pela Psicologia desde que a objetividade e o positivismo do Behaviorismo – em todos os pontos, muito próximos da metodologia das ciências naturais – superou as propostas de William James – que é igualmente considerado um dos precursores da Psicologia Transpessoal – e dos gestaltistas alemães. Freud, por sua vez, embora tenha deixado uma teoria que vai muito além da visão mecanicista estrita dos behavioristas mais radicais e tenha atingido insights realmente geniais sobre muitos dos mistérios que cercam a mente humana, criou uma teoria da personalidade que está muito próxima de uma descrição “hidráulica” do comportamento humano, sujeito à ações determinadas pela dinâmica de forças inconscientes sobre o qual a pessoa, enquanto ego consciente, tem pouco ou nenhum controle direto. Sendo assim, como nos fala Joseph Hart, “o behaviorismo e a psicanálise podem ser colocadas juntos já que estes enfoques concordam basicamente em ver o homem como um reagente; quando muito, um reagente adaptável, flexível.

 

   O psicólogo humanista, por sua vez, desenvolve seus postulados e procedimentos a partir da convicção de que o homem é um ator; na sua melhor condição, um ator criativo e auto-realizador” (Hart, 1970, p. 580). Ou seja, com o Humanismo, com sua ênfase na experiência consciente, o estudo da consciência começou a ser resgatado (na verdade, ele sempre esteve presente, nas escolas européias, mais existencialistas). Já a concepção Transpessoal admite claramente que existem outros estados de consciência que vão além dos estados tradicionais de sono, sono profundo, vigília, delírio e outros. Ela admite que existem estados supra-conscientes “cuja promoção da saúde e crescimento superariam em muito as do estado normal de vigília e as derivadas da análise das faixas infra-conscientes descobertas por Freud” (Boainain Júnior, 1996, p. 30).

 

   Carl Gustav Jung pode ser considerado o mentor máximo e o primeiro psicólogo transpessoal. As diferenças entre a Psicanálise Freudiana e as teorias de Jung são muito bem representativas das diferenças entre uma psicoterapia mecanicista e biomédica e uma mais humana e holística. Ainda que Freud e muitos dos seus discípulos tenham ido muito a fundo nas suas revisões da psicologia ocidental, atingindo os limites do paradigma cartesiano em Psicologia, apenas Jung questionou radicalmente seus fundamentos filosóficos: a visão de mundo de Descartes e Newton. Jung salientou, de modo convincente, aspectos não racionais e não lineares da psique, que inclui o misterioso, o criativo e o espiritual como meios válidos, ou formas holísticas-intuitivas de conhecimento.


   Jung via a psique como parte atuante do organismo e, portanto, extremamente sábia e criativa, com uma interação complementar entre seus elementos, inclusive entre o consciente e o inconsciente. Para ele, a concepção do inconsciente como um mero depósito psicobiológico de tendências puncionais ou instintivas rejeitadas ou reprimidas era mais uma tentativa de acomodar um modelo conceitual de inconsciente aos parâmetros de uma concepção de mundo mecanicista do que uma descrição acurada, ou plenamente psicológica, do mesmo. Ele o via como tendo um importante papel no crescimento integral do organismo, englobando até mesmo o pequeno ponto do ego consciente, de forma sábia. Ou seja, o inconsciente era parte integrante e ativa do organismo, e este, em sua globalidade, teria um “racionalismo” próprio, mais profundo, com (lembrando Pascal) as “suas razões que a própria razão desconhece”. Em sua estrutura mais profunda, ele ligaria o indivíduo a toda a humanidade, à natureza e a todo o universo, como se fosse um tipo sofisticado de holograma. E mais, o inconsciente não seria apenas governado pelo determinismo histórico, mas – e nisto Jung era antecipadamente um psicólogo humanista – também teria uma função projetiva e teleológica (Hall & Lindzey, 1984; Capra, 1986; Grof, 1988).


   “Jung não imaginava o ser humano como se fosse uma máquina biológica. Reconhecia que o processo de individuação [ maturação integral ] dos humanos pode transcender os estreitos limites do ego e do inconsciente pessoal e ligar-se ao Self, que é proporcional à humanidade toda e ao cosmos inteiro. Jung pode ser, então, considerado o primeiro representante da orientação transpessoal em Psicologia” (Grof, 1988, p. 139).




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