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A partir das influências dos pensadores mencionados e da observação de muitos pacientes, Jung formulou os conceitos da Psicologia Analítica. Referia-se à mente como psique, a qual engloba três níveis: a consciência, o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo. Porém, para entender a dinâmica natural da psique, segundo as principais idéias do pensamento junguiano, é preciso deixar de lado o raciocínio linear e lógico, ao qual estamos acostumados, e buscar uma forma de olhar a psique como algo dinâmico e em constante movimento que "se expressa e se projeta dentro e sobre o mundo externo" (Clarke, 1992:137) e, por esta razão, é vista como um organismo que cresce, amadurece e sofre semelhantemente aos seres orgânicos, exibindo marcas de um passado individual e da história da humanidade. O consciente e o inconsciente não são opostos, eles completam-se mutuamente para formar o si-mesmo (Self). O Self engloba não só psique consciente, mas também, o inconsciente. Para Jung, por mais que ampliemos nosso campo de consciência, por mais que nos tornemos conscientes de nós mesmos através do autoconhecimento, sempre haverá uma parte indeterminada e indeterminável de material inconsciente. É por isso que o Self é uma instancia que ultrapassa, pois ele contém o Todo e até aquilo co que não entramos em contato. Sempre que falamos na relação consciente/inconsciente, estamos nos referindo a uma tensão que existe e que funciona como uma auto regulação da psique humana. A forma com que o inconsciente se comunica com o consciente é simbólica, e na medida em que tal linguagem é compreendida, tornando-se consciente, ocorre uma amplificação da consciência. Assim, o símbolo torna-se mediador nesta relação, uma vez que é a melhor maneira de se expressar algo de que não se tem consciência, ele só permanece vivo enquanto possuir significados. Além disso, o símbolo pode ser visto como uma linguagem universal, uma expressão de problemáticas que estão além dos conflitos individuais. Para Jung, seria incorreto definir o inconsciente apenas como um depósito de acontecimentos infantis reprimidos que, mediante a análise, seriam trazidos para a consciência e, dessa forma, tais repressões seriam abolidas. Na concepção de Jung o inconsciente não contém a tendências infantis reprimidas como também todos os componentes que ainda não alcançaram a consciência. Tais componentes são sementes de futuros conteúdos conscientes. Assim, ao mesmo tempo em que estamos conscientes de algo, estamos inconscientes de todo o resto. O inconsciente é um campo energético imenso e em constante movimento, assim, quando dormimos, sua atividade contínua se expressa através dos sonhos, por exemplo. O inconsciente está sempre empenhado em agrupar e reagrupar seus conteúdos e trabalha com a consciência em forma compensatória visando a uma auto regulação. Jung reconhece que, embora os conteúdos do inconsciente não sejam diretamente observáveis, existem no inconsciente dois produtos, um de caráter pessoal e outro de caráter coletivo. O inconsciente pessoal contém aquisições e elementos pessoais adquiridos durante a vida do indivíduo, tais como: desejos, lembranças, planos, tendências etc. Essa camada contém elementos de natureza pessoal e, portanto, partes integrantes da personalidade individual. O caráter coletivo do inconsciente diz respeito a componentes de ordem impessoal, coletiva e universal; categorias herdadas da espécie humana, que possuem como particularidade o caráter mítico. Tais padrões coletivos foram denominados por Jung como os arquétipos (patrimônios da humanidade), que seriam imagens primordiais, arcaicas e presentes nos níveis mais profundos do consciente coletivo. O inconsciente é apresentado por Jung como um elemento inicial do qual surge a condição consciente. Um arquétipo, elemento estrutural da psique coletiva, ativado por uma experiência existencial, constela um complexo, que é um elemento básico da psique pessoal. Um complexo é um aglomerado de vivências associadas e extremamente carregadas de afeto. Assim, a forma que o arquétipo tem de se manifestar na psique humana no nível pessoal é através do complexo. Este, por sua vez, constela-se a partir de um evento da vida pessoal que se une a um determinado arquétipo da psique coletiva. "A consciência é como uma superfície ou película cobrindo a vasta área inconsciente, cuja extensão é desconhecida" (Jung, 1981:4). Pode-se definir a consciência como a relação dos fatos psíquicos com o ego. É preciso fazer uma consideração importante: "não existe elemento consciente que não tenha o ego como ponto de referência" (Jung, 1981:7). Nesta conferência, Jung discorre que o ego é centro organizador da consciência, mais que isto, ele é um dos complexos (o mais valorizado que conhecemos) formados pela percepção geral do nosso corpo e registrados na memória. É ele quem chama para si os conteúdos inconscientes e as impressões do exterior que se tornam conscientes ao seu contato e transformam-se em conhecimento. Além disso, a consciência possui algumas características particulares. É intermitente, pois, não estamos conscientes de tudo a todo tempo, passamos grande parte do tempo desligados da nossa consciência quando dormimos. Ela é estreita, limitada e seletiva, expressando a sua incapacidade de apreender vários dados simultaneamente. A todo instante estamos focalizados em um fato, preocupação ou assunto específico. Criamos uma imagem em nossa mente e, logo em seguida, ela desfaz-se para que outra apareça. É próprio do subsistema ego-consciência escolhas e exclusões, alguns aspectos da totalidade farão parte deste subsistema, outros não. Quando uma experiência existencial é captada pelo ego e se tornou conteúdo da consciência, há uma transformação e crescimento da personalidade, ocorrendo uma ampliação da consciência; podemos dizer que a amplificação é a meta principal no processo de individuação. A individuação significa tornar-se único e realizar melhor e de forma mais completa as potencialidades arquetípicas do ser humano, "é, portanto, um processo de diferenciação cujo objetivo é o desenvolvimento da personalidade individual" (Jung, 1960:524). Não devemos confundir individuação com individualismo implicado em egoísmo no qual se acentuam e se enfatizam as supostas peculiaridades em oposição a considerações e compromissos com as coletividades. O propiciador deste crescimento é o ego à medida que vai se tornando mais flexível, ágil, forte e humilde na interação com o meio externo e com o inconsciente. Pode-se dizer que aos poucos e por um longo processo vamos tornando-nos mais sábios e íntegros. Contudo, "é impossível chegar a uma consciência aproximada do si-mesmo, porque por mais que ampliemos nosso campo de consciência, sempre haverá uma quantidade indeterminada e indeterminável de material inconsciente, que pertence a totalidade do si-mesmo. Este é o motivo pelo qual o si-mesmo sempre constituirá uma grandeza que nos ultrapassa." (Jung, 1971:53). Após essa explicitação pode-se chegar à conclusão de que a consciência é resultante das infinitas possibilidades arquétipas e da realidade existencial simultaneamente. A consciência e o ego são um subsistema na psique total com uma dinâmica peculiar. Jung sempre se interessou em ajudar o homem contemporâneo com seus conflitos internos e suas preocupações. Porém, para fazer isso, ele procurava, primeiramente, apreender as condições existenciais deste homem, sem encaixá-lo em uma teoria, sem carimbá-lo com uma patologia. Jung recusa explicar o normal à luz do patológico. Para ele não bastava descrever, compreender e interpretar fatos utilizando apenas uma visão atual de homem, seria necessário olhá-lo como um ser participante de um processo histórico e de uma cultura. O homem está em um processo contínuo de transformação, assim como, também, a sua produção de conhecimento. O homem transforma, cria, constrói e, ao mesmo tempo, é transformado e construído por suas próprias ações. Esse processo progressivo e contínuo está vinculado a um contexto histórico. Assim, o homem biopsíquico-sócio caminha para a evolução e crescimento; ao longo de sua vida, vai reunindo partes separadas de seu mundo e, aos poucos, entrando em contato com a unidade e totalidade perdidas quando do surgimento da consciência.
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