( 30 Votes )

Totem e Tabu

Totem e Tabu

A leitura desenfreada da literatura Freudiana em tempos ociosos me impeliu ao desenvolvimento de algumas idéias extraídas do livro Totem e Tabu. (Freud, 1913) Lançarei luz apenas a alguns aspectos pertinentes que me foram extremamente instigantes ao entrar em contato com a presente obra citada. Portanto, sem embargo, circunscreverei, sem propósitos seqüenciais, a origem do pensamento religioso que por fim enraizou-se no remorso incestuoso da horda primeva; articulando, em vista disso, questões das quais me são prementes frente ao meu próprio ponto de vista.


Freud nos alerta com relação à obscura percepção interior de nosso mecanismo anímico que estimula invariavelmente pensamentos e que tais pensamentos são naturalmente projetados para o exterior visando alcançar o futuro e o além-mundo. Elementos tais como imortalidade, castigos, vida após a morte são reflexos do interior profundo do nosso psiquismo e que são exteriorizados nos campos religiosos e relacionais da vida.


Freud faz uma significativa contribuição à antropologia social remontando a origem das instituições sociais e culturais; porém, ensejarei os meandros do Totemismo e sua relação com os objetos fálicos do império incaico; ressaltando, portanto, – que Freud não nos alude a questões fálicas no texto e sim aos – objetos totêmicos que são um conjunto de entalhaduras animalescas e humanas explicitamente observáveis na cultura incaica cujos deuses eram representados por tais objetos inanimados feitos de argila e que o adorno principal do mesmo contemplava o falo como símbolo de poder e força.



A correlação aqui exposta com o império incaico nada mais é do que minha contribuição ao texto, que visa enriquecer e articular fatos impressos na literatura psicanalítica aos fatos de minha própria experiência, – tendo em vista minha particular e profunda ligação com a cultura peruana. A gênese da religião e a subseqüente e/ou concomitante gênese da moralidade arraigaram-se nos primórdios das tribos totêmicas em que elementos do clã viam-se barrados frente a algumas questões de desejo inerentemente enraizadas na constituição humana: o incesto e a agressão. Ao remontarmos questões do homem pré-histórico e, em particular, a cultura incaica, – logo de fato nos depararemos com objetos inanimados e explicitamente fálicos que representavam deuses de todas as espécies: seja na religião, na arte, ou na atividade para com a vida. O homem primitivo do qual me refiro não nos é extemporâneo, uma vez sabido a atual e infindável relação humana para com objetos inanimados cujo ofício lhe é resgatar a fraqueza humana que deriva de nossas projeções das imagos paternas. Todavia, tal resgate de nossas projeções se alicerça no plano mágico e não factual.


A origem da matriz da psicanálise e o complexo nuclear das neuroses alinha-se às origens do clã Totemêtico em que a endogamia era considerada regra fundamental a ser respeitada e evitada, – uma vez imposta a ordem a fim de primar o objeto de desejo cujo chefe impunha aos demais do clã. Concomitantemente a isso outra regra imperava aos primitivos e que ainda hoje nos ressoa como imperativo categórico da cultura: “Não matarás”! Portanto, uma vez explanado tais regras fundamentais instituídas nos clãs, logo nos deparamos de imediato com as conjecturas que viabilizaram a instituição familiar e que tal viabilização nos brindou com algo do qual nos é constitucional e íntimo: a neurose. Por conseqüência e, a guisa de contextualização, Tabu refere-se ao proibido e ao misterioso e Totem refere-se ao instinto de proteção para evitar a quebra dos Tabus.


O complexo de Édipo já instaurado na horda primeva inviabilizou o saciamento pulsional dos outros elementos do clã totêmico: os irmãos, que ao fim e a cabo juntaram-se para aniquilar o elemento opressor cometendo, portanto, o parricídio. O pai como elemento castrador das relações do filho para com a mãe, entendendo, em vista disso, que a mãe representa ao filho fonte de vida e amor, cuja raiz se fixa nas origens do Totemismo e da exogamia. Portanto, frente ao triângulo parental, a criança rivaliza ambivalentemente com o pai a fim de não se resignar de seu objeto de amor primeiro. Todavia, os clãs da horda primeva levaram a cabo os seus impulsos ao limite de suas estratagemas: liquidaram e dilaceraram o pai ensejando portanto a primazia maternal. Subseqüentemente a isso, não obstante, os elementos da horda primeva foram invadidos por sentimentos de remorso que doravante passaram a estabelecer regras e a proclamar ainda mais os objetos inanimados cujo valor concernia ao pai do qual eles liquidaram e dilaceraram irrestritamente em prol de suas pulsões libidinais.


Instaura-se, a meu ver, a moralidade e as primitivas e ainda atuais relações do elemento do clã totêmico para com a imagem do Deus, cuja vida lhe foi tirada e por conta disso só nos resta à veneração sem contestação uma vez que a base moral do comportamento adotado apaziguou veementemente a culpa. Reflitam a respeito de todas as origens religiosas e analisem minuciosamente a contigüidade que há entre elas com relação à hostilidade do homem junto àquele que hoje nos é representado como Deus.


“A psicanálise dos seres humanos de per si, contudo, ensina-nos com insistência muito especial que o deus de cada um deles é formado à semelhança do pai, que a relação pessoal com Deus depende da relação do pai em carne e osso e oscila e se modifica de acordo com essa relação e que, no fundo, Deus nada mais é que um pai glorificado”. ( Freud, pag. 150, 1913)


A fim de contextualizar e enriquecer este empreendimento citarei mais uma passagem absolutamente pertinente ao propósito deste artigo. “ Foram assim criadas características que daí por diante continuaram a ter uma influência determinante sobre a natureza da religião. A religião totêmica surgiu do sentimento filial de culpa, num esforço para mitigar esse sentimento e apaziguar o pai por uma obediência a ele que fora adiada. Todas as religiões posteriores são vistas como tentativas de solucionar o mesmo problema.


Variam de acordo com o estágio de civilização em que surgiram e com os métodos que adotam; mas todas têm o mesmo fim em vista e constituem reações ao mesmo grande acontecimento com que a civilização começou e que, desde que ocorreu, não mais concedeu à humanidade um momento de descanso”. ( Freud, pag. 148, 1913)


Todavia, tendo abrangido questões ligadas à origem da instituição religiosa e moral, retrocedo em alguns aspectos visando frisar que as proibições incestuosas impelidas aos membros da tribo totêmica referiam-se a fortes inclinações à consumação do ato e que tal sentimento, entre eles, era abordado de forma absolutamente desconfortante pelo fato de terem que entrar em contato com tais Tabus que, em suas origens, remontavam os seus desejos mais obscuros e prementes. A necessidade de proibir o incesto, quiçá, – tenha partido pela observância da imensa inclinação incestuosa que havia entre eles. Logo nos pomos diante da ambivalência que havia e há no Tabu: a proibição de algo que nos é intimamente desejado.


Tendo em vista o fato de a proposta ter lançado luz aos aspectos dos quais me dispus a trabalhar, reitero, ademais, o quão importante nos é a observância das circunstâncias aqui expostas no que se refere ao enlace antropológico cuja raiz hipotético-dedutiva remonta a origem das instituições e as relações projetivas do homem para com deus na medida em que o remorso se fez presente diante do parricídio. O fulcro do presente trabalho de fato não pretende impelir aos leitores nenhuma espécie de abjuração; entendendo, por conseguinte, que a psicanálise não se preocupa com juízo de valores e sim com fins de investigação profunda. Por fim, dispenso qualquer pretensão de esclarecimento fazendo jus, portanto, ao grau de complexidade literária cuja obra e as investigações históricas nos apresentam e que, a minha explanação está alhures do que de fato o texto se refere.


AUTOR: RODRIGO FERNANDES


Veja mais artigos de Freud Sobre Totem e Tabu


Mais Sobre Totem e Tabu de Freud
Josefa D. D. de Carvalho


Totem e tabu e outros trabalhos – Sigmund Freud





Artigos Relacionados