Os Fatores Sexuais da Neurose - Psicanálise de Freud

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   Em 1885, Freud recebeu uma pequena bolsa de pós-graduação, que lhe permitiu passar vários meses em Paris estudando com Charcot. Observou como Charcot aplicava a hipnose para tratar a histeria e logo passou a considerá-lo mais uma figura importante e a imaginar como seria benéfico para sua carreira, caso se casasse com a filha dele. Freud chegou a escrever uma carta a Martha, descrevendo a filha de Charcot como uma moça muito atraente (Gelfand, 1992).


   Charcot chamou a atenção de Freud para o papel do sexo no comportamento histérico. Em uma festa, Freud ouviu uma conversa de Charcot em que dizia que as dificuldades de certos pacientes teriam fundo sexual: "Nesse tipo de caso é sempre uma questão dos órgãos genitais - sempre, sempre, sempre" (apud Freud, 1914, p. 14).


   Depois de Freud voltar a Viena, novamente foi lembrado da provável origem sexual dos distúrbios emocionais. Rudolph Chrobak, famoso ginecologista, pediu a Freud para examinar o caso de uma mulher que sofria de ataques de ansiedade aliviados somente quando ela ficava sabendo o tempo todo onde se encontrava o seu médico. Chorobak disse a Freud que a origem da ansiedade estava na impotência do marido da paciente. Depois de 18 anos, a casamento dos dois ainda não se havia consumado. Freud afirmou que Chrobak lhe teria dito: "Há somente uma prescrição para tamanha doença e é bem familiar para nós, no entanto, não é de bom tom descrevê-la. Segue-se: Rx Penis normalis dosim repetatur! (X doses repetidas de pênis normal!)" (Freud, 1914). Posteriormente, Chrobak negou ter pronunciado tal observação (Ritvo, 1990, p. 75).


   Freud adotou os métodos hipnóticos e catárticos de Breuer para tratar dos seus pacientes, mas não estava satisfeito com a hipnose e logo acabou abandonando-a. Embora a técnica se mostrasse aparentemente eficaz no alívio ou na eliminação de alguns sintomas, raramente proporcionava acura prolongada. Muitos pacientes retornaram com novas queixas. Ademais, Freud descobriu que não conseguia hipnotizar com facilidade e profundamente alguns pacientes. Continuou a usar o método catártico como tratamento e elaborou a partir da catarse a técnica de "*livre associação".


   Na livre associação, o paciente fica deitado no divã e o terapeuta o encoraja a falar livre e espontaneamente, dando qualquer vazão a qualquer idéia, mesmo sendo embaraçosa sem importância ou aparentemente tola. O objetivo do sistema de psicanálise de Freud era trazer para a mente consciente as memórias ou os pensamentos reprimidos, supostamente causadores do comportamento anormal do paciente. Freud acreditava não haver nada de aleatório nas idéias que invadiam a mente do paciente, reveladas durante as sessões de livre associação. As experiências assim resgatadas seriam predeterminadas e não deviam ser censuradas pela escolha do paciente. A natureza do conflito do paciente forçava essas idéias a invadirem a consciência, devendo elas, assim, serem exteriorizadas para o terapeuta.


   Empregando a técnica da livre associação, Freud descobriu que as lembranças dos seus pacientes remetiam à infância e que muitas das experiências reprimidas das quais se lembravam estavam relacionadas a questões sexuais. Percebendo os fatores sexuais como prováveis causas do estresse emocional e consciente dos trabalhos recentes sobre a patologia sexual, Freud começou a prestar mais atenção no conteúdo sexual revelado nas narrativas dos pacientes. Mais ou menos em 1898, disse estar convencido de que "as principais e mais imediatas causas, para fins práticos, do distúrbio neurótico estão nos fatores oriundos da vida sexual" (apud Breger, 2000, p. 117).

 

   *Livre associação: técnica psicoterápica em que o paciente diz o que lhe vem à mente.





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